O PEREGRINO

E O SEU PROGRESSO

 

Capítulo 1

 

Começa O SONHO DO AUTOR. Cristão, GUIADO POR
evangelista, INICIA SUA PEREGRINAÇÃO.

 

Andando pelas regiões desertas deste mundo, achei-me em certo lugar onde havia uma caverna; ali deitei-me para dormir e, dormindo, tive um sonho. Vi um homem vestido de trapos (Isaías 64:6), de pé em determinado lugar, com o rosto voltado para o lado oposto da própria casa, um livro na mão e um grande fardo às costas (Salmos 38:4). Olhei e o vi abrir o livro e lê-lo; e lendo, chorava e tremia e já não se contendo, rebentou num choro sentido, dizendo: "Que devo fazer?" (Atos 16:30-31).

Nessa angústia, portanto, voltou para casa e se conteve o máximo que pôde, para que sua mulher e seus filhos não lhe percebessem o desconsolo; mas não podia mais calar-se, pois seu tormento crescia. Assim, afinal revelou sua angústia à mulher e aos filhos; e começou a falar-lhes:

- Minha querida esposa e filhos – disse ele – tenho estado muito preocupado em virtude de um fardo que muito me pesa; além disso, tenho uma informação segura de que nossa cidade será queimada com fogo do céu, em cuja terrível destruição eu, você, minha esposa e vocês, filhinhos amados, seremos destruídos, a não ser que haja uma maneira (que não vejo) de escapar, pela qual nos libertemos.

A revelação deixou a mulher e os filhos aflitamente surpresos, não porque acreditassem que o que ele lhes dizia era verdade, mas porque achavam que alguma insensatez desvairada lhe confundia o pensamento. Aproximando-se a noite, portanto e esperando eles que o sono pudesse acalmá-lo, mais que depressa o fizeram dormir. Mas a noite foi para ele tão perturbadora quanto o dia; assim, em vez de dormir, passou-a entre suspiros e lágrimas.

Quando veio a manhã, quiseram saber como ele passara e lhes disse que piorava cada vez mais. Também voltou a falar-lhes, mas eles começaram a mostrar-se endurecidos. Então cogitaram curar-lhe a insensatez por meio de um comportamento rude: às vezes zombavam dele; às vezes o repreendiam; e às vezes simplesmente o ignoravam. Por isso ele passou a isolar-se em seu quarto para orar e lamentar por eles, e também para condoer-se da própria angústia. Caminhava solitário pêlos campos, às vezes lendo, às vezes orando. Assim passou o tempo durante alguns dias.

Ora, vi certa vez quando ele caminhava pêlos campos que (como costumava fazer) lia seu livro exibindo grande angústia e, lendo, rebentou em lágrimas, como já o fizera antes, clamando: "Que devo fazer para ser salvo?"

Vi também que ele olhava para um lado e para o outro, como se pretendesse correr, porém permanecia imóvel, pois, como percebi, não conseguia decidir que caminho tomar. Olhei então e vi um homem chamado Evangelista aproximar-se dele e perguntar-lhe:

- Por que você está chorando?

- Senhor, percebo, por este livro que tenho nas mãos, que estou condenado a morrer e, depois, ir a julgamento (Hebreus 9:27). Não quero que a primeira coisa aconteça comigo agora, nem tampouco estou pronto para a segunda.

Disse então o Evangelista:

- Por que não está disposto a morrer, se esta vida é afligida por tantos males?

- Porque temo que esse fardo que trago às costas me enterre mais fundo que a sepultura e que eu venha a cair na fogueira. E, senhor, se não estou disposto a ir cara a prisão, não estou disposto (tenho certeza) a enfrentar o juízo e depois a execução. Pensar nessas coisas me faz chorar.

- Se é assim que você se sente — disse o Evangelista, porque você fica aí parado?

- Porque não sei para onde ir.

Então ele lhe deu um livro, no qual estava escrito: "Fugi da ira vindoura" (Mateus 3:7).

O homem leu e, olhando para o Evangelista, falou com muito cuidado:

- Para onde devo fugir?

Respondeu o Evangelista, apontando o dedo para um campo bem vasto:

- Vê lá longe aquela porta estreita? (Mateus 7:13,14).

-Não.

- Vê lá longe aquela luz radiante? (Salmos 119:105; 2 Pedro l:19).

- Acho que sim.

- Pois fixe o olhar nessa luz e suba direto até lá. Ao chegar, você verá a porta. Bata e lhe dirão o que deve fazer.

 

Capítulo 2

Cristão CHEGA AO PÂNTANO DA desconfiança

 

O homem, então, começou a correr. Ora, nem havia ainda se distanciado da porta de casa, quando sua mulher e seus filhos, percebendo, começaram a gritar-lhe que voltasse. Mas o homem tapou os ouvidos com os dedos e continuou correndo, berrando: "Vida, vida, vida eterna". Assim não olhou para trás, mas corria para o centro da campina (Gênesis 19:17).

Os vizinhos também vieram vê-lo correr1 e enquanto corria, alguns escarneciam, outros ameaçavam, outros ainda gritavam-lhe que voltasse. Ora, entre esses, dois decidiram trazê-lo de volta à força. O nome de um deles era Obstinado e o outro se chamava Volúvel. Contudo, a essa altura, o homem já estava a boa distância deles, mas mesmo assim eles resolveram persegui-lo e o fizeram e em pouco tempo o alcançaram. Disse-lhes o homem:

- Vizinhos, por que vieram atrás de mim?

- Para convencê-lo a voltar conosco.

- Isso não é possível. Vocês moram na Cidade da Destruição (Isaías 19:18), local onde também eu nasci. Percebo isso e lhes digo que, morrendo ali, mais cedo ou mais tarde vocês afundarão além da sepultura, até um lugar que queima com fogo e enxofre. Alegrem-se, bons vizinhos e acompanhem-me.

- O quê?! - Disse Obstinado. - Deixar nossos amigos e nosso conforto para trás?!

- Isso mesmo – disse Cristão (pois era esse o seu nome) – porque tudo isso que vocês abandonarão não é digno de se comparar nem com um mínimo daquilo que busco desfrutar. Se vocês vierem comigo e o alcançarem, desfrutarão também assim como eu, pois lá para onde vou há bastante e de sobra. Venham e comprovem as minhas palavras.

obs. – Que coisas são essas que você procura e pelas quais abandona o mundo todo?

cris. – Busco uma "herança incorruptível, sem mácula, imarcescível", (1 Pedro 1:4) e ela está guardada no céu, em segurança, para ser distribuída no tempo devido àqueles que a perseguirem com zelo. Leiam, se quiserem, no meu livro.

obs. - Dane-se o seu livro. Vai voltar conosco ou não?

cris. - Não, não vou, pois já pus a mão no arado (Lucas 9:62).

obs. - Não adianta, meu vizinho Volúvel. Retornemos para casa sem ele. Há uma multidão desses tolos alucinados e quando se convencem de uma fantasia, ficam mais sábios aos seus próprios olhos do que sete homens que sabem expor a razão (Provérbios 26:16).

vol. - Não o insulte. Se o que o bom Cristão diz é verdade, as coisas que ele procura são melhores que as nossas. Meu coração se inclina a acompanhar o meu vizinho.

obs. - O quê?! Há mais tolos então? Ouça-me e volte. Quem é que sabe aonde um homem tão mentalmente doente poderá levá-lo? Volte, volte, e seja sábio.

cris. - Acompanhe-me, vizinho Volúvel. Além do que já lhe falei, há muito mais glórias a alcançar. Se você não crê em mim, leia então este livro e pela verdade do que está expresso aqui, veja que tudo está confirmado pelo sangue do seu autor.

vol. - Ora, vizinho Obstinado, estou prestes a tomar uma decisão. Pretendo seguir com este bom homem e arriscar com ele a minha sorte. Mas, bom companheiro, você acaso sabe o caminho até esse lugar almejado?

Cris. - Sou guiado por um homem chamado Evangelista. Ele nos conduzirá até uma pequena porta que está adiante de nós. Lá receberemos instruções acerca do caminho.

vol. - Vamos então, bom vizinho, partamos agora. E partiram os dois.

obs. - Quanto a mim, vou voltar para casa. Não servirei de companhia para homens fantasiosos e perdidos.

 

Ora, vi então no meu sonho que, depois que Obstinado se foi, Cristão e Volúvel cruzaram a campina e assim iam conversando:

cris. - E então, vizinho Volúvel, como tem passado? Fico feliz por você ter se convencido a vir comigo. Se o próprio Obstinado sentisse o que senti diante dos poderes e terrores daquilo que ainda não se vê, ele não teria nos virado as costas assim tão levianamente.

VOL. - Como aqui não há ninguém além de nós, vizinho Cristão, diga-me que coisas são essas e como desfrutá-las no lugar aonde vamos.

cris. - Posso melhor concebê-las com a mente do que expressá-las com palavras. Mas como assim mesmo você deseja saber, vou lê-las no meu livro.

VOL. - E você crê que as palavras do seu livro são absolutamente verdadeiras?

cris. - Sim, certamente, pois foram escritas por aquele que não pude mentir Tito 1:2.

vol. - Muito bem: que coisas são essas?

cris. - Receberemos uma vida eterna e viveremos, para sempre, num reino sem fim.

vol - Muito bem: e o que mais?  

cris. - Há coroas de glória que nos serão dadas e vestes que nos farão brilhar como o sol no firmamento do céu.

vol. — Isso é excelente. E o que mais?

cris. — Não haverá mais choro nem pesar, pois aquele que é proprietário do lugar nos enxugará dos olhos toda lágrima (Apocalipse 21:4).

vol. - E quem teremos ali por companhia?

cris. - Lá conviveremos com serafins e querubins, seres que de tão brilhantes ofuscarão nossos olhos. Lá você também encontrará milhares e dezenas de milhares que chegaram antes de nós; nenhum deles é agressivo, mas santo e amoroso; todos eles andam à vista de Deus e permanecem aceitos na sua presença para sempre. Resumindo, lá veremos os anciães com suas coroas de ouro. Lá veremos as santas virgens com suas harpas de ouro (Apocalipse 4:4; 5:11; 14:1-5). Lá veremos homens que pelo mundo foram retalhados e queimados, devorados por animais e afogados nos mares, devido ao amor que tinham ao Senhor do lugar. Agora todos estão bem e vestidos de imortalidade.

vol. - Só ouvir isso já arrebata o coração de qualquer homem. Mas podemos desfrutar dessas coisas? Como poderemos consegui-las?

cris. - O Senhor, soberano daquela terra, registrou isso neste livro. A essência é seguinte: se verdadeiramente nos mostrarmos dispostos a tê-las, ele as concederá gratuitamente a nós.

vol. - Ora, meu bom companheiro, estou contente por ouvir essas coisas. Vamos, apressemos o passo.

cris. - Não posso ir tão rápido quanto gostaria, por causa deste fardo que trago às costas.

Então vi no meu sonho que, assim que encerraram essa conversa, aproximaram-se de um pântano muito lamacento que havia no meio da campina; e, estando os dois desatentos, caíram de repente no brejo. O nome do pântano era Desânimo. Ali, portanto, viram-se atolados por algum tempo, ficando repugnantemente enlameados. Cristão, por causa do fardo que trazia às costas, começou a afundar no lodo.

vol - Hei, vizinho Cristão, onde você está ?

cris. - Na verdade, não sei dizer. Diante disso Volúvel ofendeu-se e, irritado, disse ao companheiro:

- É essa a felicidade de que você vinha me falando? Se logo na partida já nos retardamos tanto, que podemos esperar daqui até o final da jornada? Se eu escapar com vida, você pode ficar com a minha parte dessa terra magnífica.2

E, dizendo isso, num esforço desesperado saiu do lamaçal, na margem do pântano que ficava mais perto da sua casa. E lá foi ele. Cristão nunca mais o viu. Assim a Cristão restou atolar-se sozinho no pântano do Desânimo: mas assim mesmo se esforçava por alcançar a margem do pântano mais distante da sua casa e mais perto da porta estreita. Ele realmente chegou lá, mas não conseguia sair, por causa do fardo que trazia às costas. Mas vi no meu sonho que dele se aproximou um homem, cujo nome era Auxílio, que lhe perguntou o que fazia ali.

cris. - Senhor, recebi ordens de seguir por este caminho de um homem chamado Evangelista. Ele também me orientou a alcançar a porta distante, para que eu possa escapar da ira vindoura. E para lá seguia quando caí aqui.

Aux. - Mas por que você não procurou as pegadas?3

cris. - O medo que me acompanhava era tão forte que fugi pelo caminho mais próximo e caí.

Aux. - Então dê-me a sua mão. Auxílio estendeu-lhe a mão e puxou Cristão, colocando-o em solo firme e ordenando-lhe que seguisse o seu caminho (Salmos 40:2).

Então aproximou-se daquele que o tirou do pântano e disse:

- Senhor, se este é o caminho da Cidade da Destruição até a porta distante, por que o terreno não está aplainado para que os pobres viajantes sigam para lá com mais segurança?

Ele respondeu:

- Esse pântano lamacento é lugar que não pode ser aterrado. E a depressão para a qual correm continuamente a escória e a imundície que acompanham a condenação do pecado, por isso chama-se Pântano do Desânimo. À medida que o pecador desperta para a sua perdição, surgem na sua alma muitos medos, dúvidas e desanimadoras preocupações e todas se reúnem e se acomodam neste lugar. Essa é a razão da ruindade desse terreno.

- Não se agrada o Rei de que este lugar permaneça assim tão ruim – disse. – Seus operários, sob ordens dos inspetores de sua majestade, também vêm trabalhando ao longo desses 1600 anos neste terreno, para – quem sabe – aplainá-lo. Sim e segundo sei, aqui já afundaram pelo menos 20 mil cargas de carroções e ainda milhares e milhares de saudáveis ensinamentos que foram trazidos em todas as estações e de todos os lugares dos domínios do Rei. Os que sabem contar dizem que esses são os melhores materiais para aterrar o lugar. Se fosse assim, já poderia ter sido aterrado, mas continua ainda o Pântano do Desânimo e assim continuará quando já tiverem feito o que podem fazer.

- É verdade que há, por ordem do legislador, certas pegadas boas e essenciais, 1 espalhadas mesmo aí no meio desse Pântano – continuou – mas quando esse lugar vomita a sua imundície, como o faz quando muda o tempo, dificilmente se vêem as pegadas. Mesmo quando estão visíveis, os homens, por causa da tontura que sentem, passam direto e, apesar de as pegadas estarem ali, acabam atolados na lama. Mas o solo é bom quando eles afinal alcançam a porta."

Depois vi no meu sonho que, a essa altura, Volúvel chegava à sua casa. Então seus vizinhos vieram vê-lo, e alguns deles o chamaram sábio por ter voltado, e outros o chamaram tolo por arriscar-se ao lado de Cristão; outros chegavam a zombar da sua covardia, dizendo:

- Certamente, depois de iniciada a aventura, eu não seria vil a ponto de desistir diante de umas poucas dificuldades.

Então Volúvel, acovardado, sentou-se no meio deles. Mas afinal ganhou mais confiança e então todos eles mudaram as suas palavras e passaram a ridicularizar pelas costas o pobre Cristão. E faziam o mesmo com Volúvel.

 

 

Capítulo 3

 

AS ARMADILHAS DO CAMINHO

 

Enquanto Cristão caminhava solitário, divisou alguém que vinha cruzando o campo em sua direção; e calhou que se encontraram bem quando cruzavam o caminho um do outro. O nome do cavalheiro era sr. Sábio(segundo o mundo). Morava na cidade da Diplomacia Profana, cidade bem grande, e também bem próxima de onde vinha Cristão.

Esse homem já sabia algo sobre Cristão, pois a partida deste da Cidade da Destruição fora muito alardeada no estrangeiro e não só na cidade onde ele morava, virando também mexerico em alguns outros lugares. O sr. Sábio(segundo o mundo), portanto, tendo já alguma informação sobre Cristão, observando a sua esforçada caminhada e percebendo seus suspiros e gemidos, quis entre outras coisas conversar um pouco com Cristão.

sáb. - Como então, bom homem, você parte assim apressado e tão carregado?

cris. - De fato, sempre achei que cada pobre criatura tem o seu fardo a carregar. E se o senhor me pergunta se parto apressado, digo-lhe que busco alcançar a distante porta estreita adiante de mim, pois lá, segundo me disseram, conhecerei um modo de me livrar desse pesado fardo.

sáb - Você tem mulher e filhos?

cris"'-. - Tenho, mas estou tão sobrecarregado com esse fardo que já não encontro neles prazer como antes; para mim e como se não os tivesse (1 Coríntios 7:29).

sáb. - Você acaso me ouviria se eu o aconselhasse?

cris. - Se for bom conselho, certamente, pois ando mesmo precisando disso.

sáb. - Eu o aconselharia, então, a livrar-se o mais rápido possível do seu fardo, pois só então alcançará paz na sua mente; só então poderá desfrutar dos benefícios da bênção que Deus lhe concedeu.

cris. - É isso o que busco: exatamente livrar-me desse pesado fardo, mas não posso tirá-lo de sobre os ombros, tampouco há homem em nossa terra que possa fazê-lo. Portanto sigo este caminho, como já lhe disse, para me livrar deste fardo.

sáb. - Quem mandou que você viesse por este caminho para livrar-se do seu fardo?

cris. - Um homem que me pareceu pessoa muito boa e honrada. Seu nome, se bem me lembro, é Evangelista.

Sáb. - Eu o amaldiçôo por esse conselho. Não há no mundo caminho mais perigoso e difícil que este que ele lhe indicou e isso você mesmo vai descobrir, se continuar a seguir o conselho dele. Você já se deparou com algo (como percebo), pois estou vendo a imundície do Pântano do Desânimo. Esse pântano, porém, é o início dos pesares que afligem aqueles que tomam este caminho. Ouça-me – acrescentou o sábio – sou mais velho que você! É provável que, no caminho, você encontre exaustão, dor, fome, perigos, nudez, espada, leões, dragões, trevas e, em suma, a morte, entre outras coisas. Todas elas são seguramente verdadeiras, já tendo sido confirmadas por muitas testemunhas. E por que deveria um homem condenar-se tão gratuitamente dando ouvidos a um estranho?

cris. - Este fardo às minhas costas é mais terrível para mim do que todas essas coisas que o senhor mencionou. Não, acho que é melhor não me preocupar com o que eu venha a encontrar no caminho, pois assim poderei também livrar-me do meu fardo.

Sáb. -  Mas como afinal veio-lhe este fardo?

cris. - Lendo este livro que tenho nas mãos.

Sáb. - Eu já imaginava. 1 O mesmo ocorreu a outros fracos, que, metendo-se com coisas elevadas demais para si caem subitamente nessas mesmas dificuldades, que não só castram os homens – como vejo que as suas lhe fizeram – mas os levam a aventuras desesperadas para alcançar nem eles sabem o quê.

cris. - Eu sei o que quero alcançar: alívio deste meu fardo pesado.

Sáb. - Mas por que você vem procurar alívio neste caminho, vendo que há tantos perigos? Se você tivesse a paciência de ouvir-me, poderia dizer-lhe como alcançar o que deseja, sem enfrentar os perigos que este caminho lhe oferece. Veja, o remédio está à mão. E tem mais, em vez desses perigos você encontrará muita segurança, amizade e alegria.

cris. - Rogo, senhor, que me revele esse segredo.

sáb. - Ora, numa vila distante (chamada Moralidade) mora um cavalheiro cujo nome é Legalidade, homem muito sensato (e de reputação muito ilibada) que tem a capacidade de ajudar a aliviar os homens dos fardos, como os seus, que carregam nos ombros. Pelo que sei ele já fez isso muito bem.

- Além disso – continuou o sábio – ele sabe como curar aqueles que se acham com a mente um tanto perturbada por conta dos fardos que carregam. E a ele, como disse, que você deve procurar. Ele vai ajudá-lo prontamente. Sua casa não fica a mais de um quilômetro e meio daqui e se ele mesmo não estiver em casa, seu filho – um jovem muito bonito, chamado Urbanidade – é tão perito nisso (a propósito) quanto o próprio idoso pai. Garanto-lhe que ali você poderá encontrar alívio do seu fardo.

- E digo mais – acrescentou ainda o sábio – se você não estiver disposto a voltar para sua antiga casa, como de fato eu não desejaria que você fizesse, poderá mandar buscar a sua esposa e os seus filhos e instalar-se nessa vila. Nela, há hoje casas vazias, uma das quais você pode conseguir por preço razoável. Ali também encontrará mantimentos bons e baratos, mas o que irá tornar a sua vida mais feliz é que, com certeza, ali encontrará vizinhos sinceros, confiáveis e educados.

Ora, Cristão se viu um tanto indeciso, mas logo concluiu que, se era verdade o que lhe dissera esse cavalheiro, a melhor atitude a tomar seria aceitar o seu conselho. Então respondeu:

cris. - Senhor, que caminho devo tomar até a casa desse homem honesto?

sáb. - Você está vendo ao longe aquela alta colina? 2

cris. - Estou vendo, sim.

sáb. - E para lá que deve seguir. A casa dele é a primeira que você avistar.

Assim, Cristão desviou-se do seu caminho para ir até a casa do Sr. Legalidade em busca de ajuda. Mas eis que, quando já se aproximava da colina, esta pareceu-lhe tão alta e também a encosta mais próxima do caminho pendia a tal altura, que Cristão teve medo de se aventurar mais, temendo que a colina lhe caísse sobre a cabeça. Portanto ali ficou imóvel, sem saber o que fazer. Além disso, o seu fardo agora lhe parecia mais pesado do que quando ele seguia o seu caminho.

Também da colina vinham lampejos de fogo, e Cristão temeu vir a ser queimado (Êx 19:16, 18). Suava e até tremia de medo (Hb 12:21). Então começou a se arre- pender de ter aceitado o conselho do sr. Sábio(segundo o mundo.

Viu, então, Evangelista que vinha em sua direção e corou de vergonha. Evangelista se aproximou mais e mais e, chegando até Cristão, olhou-o com semblante severo e temível.

evan. - O que você está fazendo aqui? - Cristão não sabia o que responder, permanecendo calado diante dele. - Você não é o homem que achei chorando dentro dos muros da Cidade da Destruição?

cris. - Sim, senhor, eu mesmo.

evan. — Não lhe pedi que seguisse o caminho que leva à portinha estreita?

cris. - Sim, senhor.

evan. - Então como é que você se desviou tão rapidamente para fora do caminho?

cris. - Encontrei um cavalheiro logo depois de passar pelo Pântano do Desânimo. Esse senhor distinto convenceu-me de que na vila ali adiante eu acharia um homem que poderia me aliviar do fardo.

evan. - Quem era ele?

cris. — Parecia um cavalheiro. Conversou bastante tempo comigo e, afinal conseguiu convencer-me. Então vim para cá. Mas quando me deparei com esta colina, vendo como se debruça por sobre o caminho, de repente parei, com medo de que caísse sobre a minha cabeça.

evan. — E o que esse cavalheiro lhe disse?

cris. - Bem, ele me perguntou aonde eu ia e eu lhe contei.

evan. — E o que mais ele lhe falou?

cris. - Perguntou se eu tinha família e eu respondi. Disse-lhe que estava tão sobrecarregado com o fardo que trago às costas que já não encontro prazer na minha família como antes.

evan. - O que ele lhe disse então?

cris. - Ele mandou que me livrasse rapidamente do meu fardo e eu lhe disse que era o alívio que eu buscava. Eu lhe disse, também, que seguia rumo à porta distante para receber mais orientações sobre como alcançar o local da libertação. Então ele disse que me mostraria um caminho melhor e mais curto, não tão repleto de dificuldades como aquele em que o senhor me colocou. Ele disse que o caminho que ele estava me ensinando leva diretamente à casa de um cavalheiro que sabe como aliviar esses fardos. Então acreditei nele e desviei-me daquele caminho para tomar este outro, esperando logo me ver livre do fardo. Mas, chegando aqui, vi as coisas como são e parei com medo (como disse) do perigo. Agora não sei o que fazer.

evan. - Então continue parado para que eu possa mostrar-lhe as palavras de Deus. - E Cristão ficou ali tremendo. - "Tende cuidado, não recuseis ao que fala. Pois, se não escaparam aqueles que recusaram ouvir quem divinamente os advertia sobre a terra, muito menos nós, os que nos desviamos daquele que dos céus nos adverte" (Hebreus 12:25). - Disse também: — Ora, "o meu justo viverá pela fé, e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma" (Hebreus 10:38). - Depois ainda aplicou-lhe as palavras: - Você é esse homem que se encaminha para essa miserável condição. Você passou a rejeitar o conselho do Altíssimo e desviou seus pés do caminho da paz, chegando mesmo a arriscar-se à perdição. Então Cristão prostrou-se aos seus pés, corno morto, lamentando-se:

- Ai de mim, que estou arruinado! (Isaías 6:5) - Diante disso, Evangelista tornou-o pela mão direita, dizendo:

- "Todo pecado e blasfêmia serão perdoados ao homem" (Mateus 12:31; Marcos 3:28), portanto "não sejas incrédulo, mas crente" (João 20:27).

Então Cristão ganhou um pouco de alento e se pôs de pé ainda tremendo, como antes, diante de Evangelista, que lhe disse:

- Preste mais atenção às coisas que lhe contarei agora. Vou dizer-Lhe quem foi que o iludiu e a quem ele o enviou. O homem que você encontrou é um Sábio(segundo o mundo). Ele é assim chamado e com justiça, porque em parte só valoriza a doutrina deste mundo e portanto sempre vai à igreja na cidade da Moralidade e em parte porque ama acima de tudo essa doutrina, pois o salva da cruz. Como a índole desse Sr. Sábio é carnal, ele procura evitar os meus caminhos, embora correios,

- Ora — continuou Evangelista — há três coisas no conselho desse homem que você deve abominar completamente. Primeiro, o fato de ele ter desviado você do caminho. Segundo, o fato de ele ter-se esforçado por tornar a cruz odiosa para você. E, finalmente, o fato de ele ter mandado você trilhar o caminho que conduz à morte.

- Portanto — disse ainda Evangelista — você precisa, em primeiro lugar, abominar a tentativa que ele fez de desviá-lo do caminho, assim como o seu próprio consentimento, pois isso equivale a rejeitar o conselho de Deus, em favor do conselho de um Sábio(segundo o mundo). Diz o Senhor: "Esforçai-vos por entrar pela porta estreita" (Lucas 13:24), a porta para a qual enviei você, pois "estreita é a porta... que conduz para a vida e são poucos os que acertam com ela" (Mateus 7:13,14). Dessa portinha estreita e desse caminho que a ela conduz, é que esse homem ímpio desviou você, para levá-lo quase à destruição. Odeie, portanto, essa sua tentativa de desviar-se do caminho e abomine a você mesmo por ter dado ouvidos a ele.  

- Em segundo lugar — continuou — você precisa aborrecer o esforço desse Sr. Sábio no sentido de fazê-lo odiar a cruz, pois você deve preferi-la aos tesouros do Egito (Hebreus 11:26). Ademais o Rei da Glória já lhe disse que "quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á" (Marcos 8:35) e que aquele que o segue "e não aborrece a seu pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lucas 14:26). O que estou dizendo é que, se um homem se esforça por convencê-lo de que isso será a sua morte, você deve odiar tal doutrina, pois sem a verdade você não pode ter vida eterna.

- Em terceiro lugar — disse Evangelista — você precisa odiar o fato de esse homem tê-lo colocado no caminho que conduz à morte. Mas, para isso, você tem de considerar a pessoa para quem ele o enviou e também o fato de que ela é incapaz de libertá-lo do seu fardo. — E Evangelista ainda disse a Cristão:

- Aquele a quem você foi enviado para encontrar alívio e que se chama Legalidade, é filho da mulher escrava (Gálatas 4:21-31), que está acorrentada junto com os seus filhos e envolta em mistério. Ela é hoje este monte Sinai, que você temeu que caísse sobre a sua cabeça. Ora, se ela e seus filhos estão acorrentados, como você pode esperar deles a liberdade?  

— Esse Legalidade, portanto — continuou — não é capaz de libertá-lo do seu fardo. Homem nenhum jamais foi libertado do seu fardo por intermédio dele e provavelmente jamais o será. Ninguém pode ser justificado pelas obras da lei, pois pêlos atos da lei nenhum homem vivente pode se livrar do seu fardo.

- Portanto — concluiu Evangelista — o Sr. Sábio-se-gundo-o-mundo é adversário e o Sr. Legalidade, impostor; e quanto ao seu filho Urbanidade, não obstante a sua falsa aparência sorridente, não passa de um hipócrita que não pode ajudá-lo. Creia-me: nada há em todas essas bobagens que você ouviu desse estúpido, a não ser o intento de afastá-lo da sua salvação, desviando-o do caminho no qual coloquei você.

Depois disso Evangelista invocou do céu, em voz alta, a confirmação daquilo que dissera e então saíram palavras e fogo da montanha sob a qual se achava o pobre Cristão, que ficou de cabelos arrepiados diante do espetáculo. As palavras foram estas: "Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de maldição: porque está escrito: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las" (Gálatas 3:10). Assim Cristão nada mais esperava a não ser a morte e lamentava-se deploravelmente, amaldiçoando até o momento em que encontrou o Sr. Sábio(segundo o mundo) e ainda chamando-se mil vezes obtuso por ter dado ouvidos ao seu conselho. Sentia-se também muito envergonhado, ponderando como os argumentos desse distinto senhor, oriundos que eram somente da carne, puderam prevalecer nele e levá-lo a abandonar o caminho reto. Isso feito, dirigiu-se novamente a Evangelista, dizendo:

cris. - O que o senhor acha? Ainda há esperança? Será que posso voltar e seguir até a porta estreita? Não serei abandonado por isso, ou enviado de volta coberto de humilhação? Lamento muito ter dado ouvidos ao conselho desse homem, mas que meu pecado me seja perdoado.

evan. — O seu pecado é muito sério, pois você praticou dois males: abandonou o bom caminho e trilhou caminhos proibidos. Contudo, o porteiro vai recebê-lo, pois demonstra boa vontade para com os homens. Mas cuidado para que não se desviar novamente, para não perecer pelo caminho quando em breve a sua ira estiver acesa (Salmos 2:12).

Então Cristão disse que voltaria, e Evangelista, depois de beijá-lo, sorriu-lhe, desejando-lhe sucesso. Cristão partiu apressado; não falou com homem algum pelo caminho e, se alguém o interpelava, tampouco dava-lhe resposta.

Seguia como alguém que trilhasse sempre solo proibido e não se julgou seguro enquanto não retomou o caminho que deixara para seguir o conselho do Sr. Sábio(segundo o mundo).

 

Capítulo 4

 

CRISTÃO CHEGA FINALMENTE À PORTA ESTREITA

 

Cristão afinal alcançou a porta. Ora, acima do portão estava escrito: "A quem bate, abrir-se-lhe-á" (Mateus 7:8). Portanto ele bateu, mais de uma ou duas vezes, dizendo:

Posso entrar? Quem do outro lado está

Que para um pobre homem a porta abrirá?

Rebelde sei que sou, mas isto prometo:

Louvá-lo para sempre com mil sonetos.

Afinal apareceu à porta um homem circunspeto, de nome Boa Vontade, perguntando quem lá estava, de onde vinha e o que pretendia.

cris. — Eis aqui um pobre pecador sobrecarregado. Venho da Cidade da Destruição, mas rumo para o monte Sião, para ali me libertar da ira que há de vir. Portanto, senhor, como fui informado de que por esta porta passa o caminho até lá, ouso pedir que me deixe passar.

boa vontade — É de todo o coração que o faço — disse ele, já abrindo a porta1. Então, quando Cristão entrava, o homem o puxou.

- Por que isso? — Perguntou Cristão.

- A pouca distância daqui ergue-se um sólido castelo, capitaneado por Belzebu.2 De lá ele e os que o acompanham atiram flechas contra aqueles que chegam até esta porta, para que assim morram antes de entrar.

- Alegro-me e tremo. Estando Cristão já lá dentro, o homem da porta lhe perguntou:

- Quem o mandou aqui?

cris. — Evangelista mandou-me vir até aqui e bater, como fiz. Ele garantiu-me que o senhor me diria o que devo fazer.

boa vontade - Diante de você há uma porta aberta, que ninguém pode fechar (Apocalipse 3:8).

cris. - Agora começo a colher os benefícios dos riscos que corri.

boa vontade - Mas por que veio sozinho?

cris. - Nenhum dos meus vizinhos viu, como eu, o perigo que correm.

boa vontade - Acaso alguém dentre eles soube da sua vinda?

cris. - Sim, minha mulher e meus filhos me viram sair e me chamaram de volta. Também alguns dos meus vizinhos ficaram lá gritando, chamando-me de volta; mas tapei os ouvidos e segui meu caminho.

boa vontade - Mas nenhum deles o seguiu para convencê-lo a voltar?

cris. - Seguiram-me Obstinado e Volúvel. Porém quando viram que não conseguiam me demover, Obstinado voltou praguejando, mas Volúvel acompanhou-me ainda um pouco.

boa vontade - Por que, então, ele não chegou até aqui?

cris. - Na verdade vínhamos juntos, até chegarmos ao Pântano do Desânimo, onde caímos de repente. Então meu vizinho Volúvel desanimou-se e não quis aventurar-se além.3 Assim, saindo do pântano no lado mais próximo da sua casa, ele me disse que eu poderia tomar posse sozinho, por ele também, da terra magnífica. Então ele seguiu seu caminho, e eu tomei o meu. Ele atrás de Obstinado, eu até esta porta.

boa vontade - Pobre coitado. Será que tem ele a glória celeste em tão pouca estima que julgou não valer a pena enfrentar o risco de algumas dificuldades para alcançá-la?

cris. - Certamente. Falei a verdade sobre Volúvel, mas também quero falar toda a verdade sobre mim, pois aí se verá que eu não sou nem um pouco melhor do que ele. É verdade que ele voltou para casa, mas também eu me desviei e tomei o caminho da morte. Fui convencido pêlos argumentos mundanos de um certo Sr. Sábio(segundo o mundo).

boa vontade - Ah, então ele o abordou! Ora, certamente ele o teria mandado buscar alívio pelas mãos do Sr. Legalidade. Os dois são grandes enganadores. Mas então você aceitou seus conselhos?

cris. - Aceitei, até onde me restou coragem. Saí à procura do tal Sr. Legalidade, mas, chegando perto da casa dele, pensei que a montanha que se ergue ali fosse cair sobre mim, então fui forçado a parar.

boa vontade - Essa montanha já representou a morte de muita gente e será ainda morte para muitos mais. Sorte você não ter sido esmigalhado por ela.

cris. - Bem, na verdade não sei o que seria de mim se, por sorte, Evangelista não tivesse me encontrado ali novamente, quando eu já me via perdido. Mas foi por misericórdia divina que ele chegou até mim outra vez, senão eu jamais teria chegado até aqui. Porém aqui estou eu, que mais merecia a morte naquela montanha do que estar aqui conversando com o meu Senhor. Quanta graça encontrei: ser-me permitido entrar aqui!

boa vontade: - Não levantamos objeções contra ninguém. Pouco importa tudo o que tenham feito antes de vir aqui, pois de modo nenhum são lançados fora (João 6:37). Sendo assim, meu bom Cristão, venha comigo que lhe ensinarei algo sobre o caminho que você deve trilhar. Olhe à frente. Está vendo este caminho estreito? É este o caminho que você deve tomar. Foi aberto pêlos patriarcas, pêlos profetas, por Cristo e seus apóstolos, e é tão reto quanto o pode fazer uma régua. É este o caminho que você deve seguir.

cris. - Mas não há desvios nem curvas que me façam perder o caminho?

boa vontade - Há, sim, muitos caminhos que partem deste para baixo. São caminhos sinuosos e largos. Mas você poderá distinguir o errado do certo assim: só este é reto e estreito (Mateus 7.13-14).

Então vi no meu sonho que Cristão lhe perguntava ainda se ele não poderia ajudá-lo a aliviar o fardo que trazia às costas, pois até então não se livrara dele, nem poderia de modo nenhum tirá-lo sem auxílio. Boa Vontade lhe disse:

- Quanto ao fardo, contente-se em carregá-lo, até chegar ao local da libertação4 pois lá por si só cairá das suas costas.

Então Cristão se preparou para iniciar a caminhada. Boa Vontade disse-lhe que, estando já a certa distância da porta, chegaria à casa de Intérprete. Ali deveria bater, pois o anfitrião lhe mostraria coisas excelentes. Assim Cristão despediu-se do amigo, que novamente lhe desejou boa sorte.

 

Capítulo 5

 

CRISTÃO ENCONTRA-SE COM INTERPRETE

 

Cristão continua seu caminho até chegar à casa de Intérprete, onde bateu à porta várias vezes. Afinal alguém apareceu, perguntando quem era ele. Cristão identificou-se:

- Sou um viajante, senhor. Um conhecido do bom homem desta casa enviou-me aqui para o meu próprio bem. Gostaria, pois, de falar com o dono da casa.

Então o homem foi lá dentro chamar o dono da casa, que logo depois apareceu para falar com Cristão, perguntando-lhe o que queria.

cris. - Senhor, venho da Cidade da Destruição e me dirijo ao monte Sião. O homem que fica à porta me disse no início deste caminho que, se eu batesse aqui, o senhor me mostraria coisas excelentes, coisas que me seriam proveitosas na jornada.

int. - Entre. Vou mostrar-lhe algo que lhe será proveitoso.

Mandou então seu servo acender a vela1, e fez sinal para que Cristão o acompanhasse. Levou-o a um aposento e mandou o servo abrir a porta. Feito isso, Cristão viu pendurado na parede o quadro de uma pessoa bastante séria. Era esta a sua aparência: os olhos estavam erguidos aos céus; nas mãos trazia o melhor dos livros; a lei da verdade lhe estava escrita nos lábios; o mundo estava às suas costas; pela postura parecia apelar aos homens e da cabeça lhe pendia uma coroa de ouro.

cris. - O que significa isso?

int. - O homem cuja figura você está vendo é um dentre mil. Pode gerar filhos, dá-los à luz e ainda amamentá-los ele mesmo, depois. E se você o vê de olhos erguidos aos céus, com o melhor dos livros nas mãos e a lei da verdade gravada nos lábios, é para mostrar-lhe que o trabalho dele é conhecer e revelar coisas sombrias aos pecadores, como também apelar aos homens.

- Se você vê o mundo às suas costas — continuou Intérprete — e uma coroa pendendo da cabeça dele, isso é para mostrar-lhe que, desprezando e desdenhando as coisas presentes pelo amor com que serve ao seu Mestre, certamente terá por recompensa a glória, no mundo que há de vir.

- Ora — disse ele ainda — mostrei-lhe primeiro este quadro porque o homem cuja figura você está vendo é o único homem a quem o Senhor do lugar para onde você está indo autorizou para guiá-lo em todos os lugares difíceis que você talvez encontre pelo caminho. Portanto preste bastante atenção ao que lhe mostrei. Guarde bem o que você viu, para que não encontre, durante a sua jornada, alguém que finja estar encaminhando você ao rumo certo, quando na verdade o está levando à ruína e à morte.

Então Intérprete o tornou pela mão e o levou a uma sala bem grande, cheia de poeira, pois jamais era varrida. Depois de examiná-la, Intérprete mandou um homem varrê-la. Ora, começando ele a varrer, o pó ergueu-se tão abundante que Cristão quase sufocou. Disse então Intérprete a uma jovem que estava ali ao lado:

- Traga água e borrife um pouco na sala. Feito isso, a sala pôde ser varrida e limpa com prazer.

cris. - O que significa isso?

int. - Esta sala é o coração do homem que jamais foi santificado pela doce graça do Evangelho. A poeira é seu pecado original e as corrupções mais íntimas que macularam todo o homem. Aquele que começou a varrer primeiro é a lei, mas a que trouxe água e a borrifou, é o Evangelho. Ora, você mesmo viu que assim que o homem começou a varrer, a poeira levantou, tornando impossível limpar a sala. Você quase sufocou. Isso foi para mostrar-lhe que a lei, em vez de limpar (pela sua ação) o coração do pecado, na verdade o faz reviver, o fortalece e o amplia na alma, ainda que o revele e proíba, pois não dá força para subjugar.

- Depois — continuou ele — você viu a jovem borrifar a sala com água, podendo então limpá-la com prazer. Isso é para mostrar-lhe que quando o Evangelho entra no coração com sua influência doce e inestimável, o pecado é conquistado e subjugado, da mesma forma como você viu a jovem fazer pousar a poeira borrifando o chão com água. A alma se faz limpa pela fé, preparando-se conseqüentemente para que o Rei da Glória a habite.

Vi ainda no meu sonho que Intérprete tomou Cristão mais uma vez pela mão e o levou a um quarto apertado, onde se viam dois menininhos sentados, cada qual em sua cadeira. O nome do mais velho era Paixão, e o outro chamava-se Paciência. Paixão parecia muito insatisfeito, mas Paciência permanecia bem tranqüilo. Então perguntou Cristão:

- Qual o motivo do descontentamento de Paixão?

- Seu tutor quer que ele espere, que as melhores coisas lhe virão no início do ano que vem. Mas ele as quer agora. Paciência, no entanto, se dispôs a aguardar.

Vi então que alguém se aproximou de Paixão e, trazendo-lhe um saco, derramou um tesouro aos seus pés. Ele o tomou, alegrou-se e ainda riu-se de Paciência, zombeteiro. Continuei a observar e notei que Paixão logo dissipou tudo, nada lhe restando senão farrapos.

- Explique-me melhor esse assunto – pediu Cristão a Intérprete.

int. - Esses dois meninos são simbólicos: Paixão representa os homens deste mundo e Paciência, os homens do mundo que há de vir. Pois, como você está vendo aqui, Paixão quer tudo agora, este ano, ou seja, neste mundo. São assim os homens deste mundo; eles precisam ter todas as boas coisas agora; não podem aguardar até o ano que vem, ou seja, até o mundo vindouro, para receber o seu quinhão de benefícios. Intérprete continuou dizendo:

— O provérbio "Mais vale um pássaro na mão que dois voando" tem para eles mais autoridade do que todos os testemunhos divinos do bem do mundo que há de vir. Mas como você mesmo viu, Paixão esbanjou tudo rapidamente e nada lhe restou agora senão farrapos. Assim acontecerá aos homens dessa espécie quando do final deste mundo.

cris. - Agora vejo que Paciência exibe a sabedoria mais perfeita e isso por duas razões: Primeiro porque aguarda as melhores coisas. E, segundo, porque também terá a glória, enquanto ao outro nada resta senão farrapos.

int. - Você pode acrescer ainda esta outra: a glória do mundo vindouro jamais se gastará, mas as daqui subitamente passam. Sendo assim, Paixão não teve tanto motivo para rir de Paciência só por ter recebido as boas coisas primeiro. Quanto a Paciência, terá de rir-se de Paixão por receber as melhores coisas por último, pois o primeiro precisa dar lugar ao último, já que o último também terá a sua hora. O último, porém, não cede o lugar a ninguém, pois não há quem venha depois dele.

- Aquele portanto que recebe primeiro o seu quinhão – disse-lhe Intérprete – deve sem dúvida ter a oportunidade de gastá-lo; porém aquele que receber a sua porção por último a terá para sempre. Logo, diz-se do rico: "Recebeste os teus bens em tua vida e Lázaro igualmente os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos" (Lucas 16:25).

cris. - Então percebo que não é melhor cobiçar as coisas que hoje existem, mas esperar pelas que hão de vir.

int. — Você diz a verdade, "porque as coisas que se vêem são temporais e as que se não vêem são eternas" (2 Coríntios 4.18). Mas mesmo assim, como as coisas presentes e nosso desejo carnal são vizinhos tão próximos um do outro e como as coisas que virão e o sentido carnal são tão estranhos um para o outro, é natural que aqueles se tornem tão rapidamente amigos e que a distância entre estes se mantenha.

Então vi no meu sonho que Intérprete tomava Cristão pela mão e o levava a um lugar onde se via uma fogueira ardendo diante de uma parede. Ali havia alguém que não saía de perto, jogando sempre muita água na fogueira com a intenção de apagá-la. Mas as chamas aumentavam e ficavam cada vez mais quentes.

- O que significa isso? — Perguntou Cristão.

- Esta fogueira – respondeu Intérprete – é a obra da graça que se opera no coração. Aquele que joga a água, tentando apagá-la e extingui-la, é o Diabo; mas você pode ver que o fogo, assim mesmo, fica sempre maior e mais quente. Você também verá a razão disso.

Então ele o levou para trás da parede, onde se via um homem com um vaso de óleo nas mãos. Ele, em segredo, derramava continuamente óleo no fogo. Disse Cristão:

- O que isso significa?

- Este é Cristo, que continuamente, com o óleo da sua graça, mantém viva a obra já iniciada no coração e por meio dessa obra, a despeito de tudo o que pode fazer o Diabo, as almas dos crentes se provam piedosas. Mas você observou também que o homem fica atrás da parede para alimentar o fogo. Isso é para ensinar-lhe que é difícil para aquele que é tentado ver como essa obra graciosa se conserva na alma.

Vi também que Intérprete tomava-o novamente pela mão, levando-o até um lugar agradável, onde se erguia um imponente castelo, belo de admirar. Cristão exultou diante da visão. Viu ele também que, no terraço do castelo, algumas pessoas caminhavam, vestidas todas de ouro.

- Podemos entrar? — Perguntou Cristão.

Intérprete então tomou-lhe a mão e o levou até a porta do castelo e eis que, à porta, havia um grande ajuntamento de homens, todos desejosos de entrar, mas nenhum deles ousava fazê-lo. Ali também estava sentado um homem, a pouca distância da porta, ao lado de uma mesinha e sobre esta via-se um tinteiro e um livro, no qual ele anotava o nome daquele que haveria de entrar.

Cristão viu também que no vão da porta havia muitos homens que, trajando armaduras, barravam a passagem, determinados a fazer todo dano e mal que pudessem àquele que tentasse entrar. Cristão ficou ali absorto. Por fim, quando todos começaram a recuar com medo dos homens armados, Cristão viu um homem de semblante bem resoluto aproximar-se do que estava sentado escrevendo e disse: - Anote o meu nome, senhor.

Viu então que o homem desembainhava a espada e colocava um capacete na cabeça, avançando rumo à porta, contra os homens armados, que sobre ele caíram com força mortal. O homem, porém, não se deixou esmorecer e, mesmo caído, golpeava e talhava ferozmente. Assim, depois de ser ferido e ferir muitos dos homens que tentavam evitar a sua entrada, conseguiu abrir caminho em meio a todos eles, entrando no palácio.

Ouviu-se, então, uma bela voz vinda dos que estavam lá dentro, dos três mesmos que caminhavam no terraço do palácio, e dizia:

Entre, entre; Glória aqui você terá para sempre.

Então ele entrou e se vestiu com os mesmos trajes dos outros. Cristão sorriu e disse:

- Acho, em verdade, que já sei o significado disso. Agora, deixe-me seguir adiante.

- Não, fique aqui – exclamou Intérprete – até que eu lhe mostre um pouco mais. Depois você poderá seguir o seu caminho.

Então Intérprete novamente o tomou pela mão e o levou a um recinto muito escuro, onde se via um homem sentado atrás de grades de ferro.2

Ora, o homem parecia muito triste. Estava ali sentado com os olhos pregados no chão, as mãos unidas, e suspirava como se trouxesse o coração amargurado. Disse Cristão:

- O que significa isso? – Intérprete pediu-lhe que conversasse com o homem.

- O que você é? – Perguntou Cristão.

- Sou o que antes não era – respondeu o homem.

cris. — O que você era?

homem — Antes era um professor3 formoso e bem-sucedido, tanto aos meus próprios olhos quanto aos olhos dos outros. Pensava que estava destinado a subir até a Cidade Celestial e então até me alegrava diante da idéia de que lá chegaria.

cris. — Sim, mas o que você é agora?

homem — Hoje sou um homem desesperado e no desespero estou preso, como nessas grades de ferro. Não posso sair. Ah, já não posso mais.

cris. — Mas como é que você chegou a esta condição?

homem — Deixei de vigiar, de me manter sóbrio. Larguei as rédeas no pescoço das minhas paixões. Pequei contra a luz da palavra e a bondade de Deus. Entristeci o Espírito e ele se foi. Tentei o Diabo e ele me veio. Provoquei a ira de Deus e ele me abandonou. Tanto endureci o meu coração, que já não posso me arrepender.

- Mas então não há esperança para um homem como este – disse Cristão a Intérprete.

- Pergunte a ele.

cris. - Então não há esperança? Você tem de continuar preso atrás dessas grades de ferro, em desespero?

homem — Esperança nenhuma.

cris. - Por quê? Se o Filho do Bem-Aventurado é sobremodo misericordioso?

homem - Eu o crucifiquei de novo para mim mesmo; desprezei a sua pessoa; desdenhei da sua justiça; tive o seu sangue como coisa ímpia, ultrajei o Espírito da graça (Hebreus 10.29). Portanto distanciei-me de todas as promessas e agora nada me resta senão ameaças, terríveis ameaças, temíveis ameaças de segura condenação e feroz indignação, que me irão devorar como um adversário.

cris. - Por conta do que você se deixou cair em tal estado? homem - Pelas paixões, prazeres e proveitos deste mundo, e ao gozá-los prometi a mim mesmo muito deleite. Mas agora cada uma dessas coisas me rói e me atormenta como verme ardente.

cris. - Mas agora você não pode se arrepender e voltar atrás?

homem - Deus me negou o arrependimento. Sua Palavra não me encoraja a crer. Sim, ele mesmo me trancou atrás destas grades de ferro e nem todos os homens do mundo podem me libertar. Ah, eternidade! Eternidade! Como lutar contra a miséria que me aguarda na eternidade? Lembre-se da miséria deste homem. Chie isto lhe
sirva como incessante alerta — disse Intérprete a Cristão.